sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Opinião: de que lado está Deus na política?

Publicado em  sexta-feira, outubro 23, 2020  |  em  Politíca

Por Ismael Nazário
Usar religião, Deus e até um livro "sagrado" para abençoar a política ou algum político é, no mínimo, o cúmulo da estupidez. É colocar a divindade à frente de projetos e usá-la com total falta de respeito, enquanto arma ideológica como desculpa de bondade, querendo dizer que, um lado tem Deus e o outro não, um lado é puro e o outro não, ou ainda que, um lado tem a verdade e o outro não, reproduzindo uma narrativa cristã de um Deus da luz contra um Deus das trevas, o Diabo.

Com essa atitude, se cria o mito de um inimigo que está fora, que prejudica o sistema, que deve ser eliminado, e, foi essa a estratégia que Bolsonaro usou para ganhar as eleições em 2018. Onde está a memória? Nosso presidente ressaltou o nacionalismo, criou um inimigo comum que devia ser combatido, e usou Deus como guerreiro na sua linha de frente. A mesma coisa estão fazendo agora em várias cidades do Estado do Ceará e do Brasil, e aqui também em Jaguaribara, destaco, nas eleições municipais.

É de se pensar que essas pessoas não estão conscientes daquilo que estão fazendo, dizendo, defendendo... Pois a verdade não é exclusividade de um grupo, muito menos Deus é propriedade privada que possa ser gasto como dinheiro, passado de mão em mão. Iludidos são aqueles que pensam assim. E se há uma divindade, ela deve estar com "nojo" desse povo politiqueiro e egoísta que o usa para seus propósitos e projetos mesquinhos. Embora sentir nojo não seja uma qualidade da divindade, mas sim nossa.

O discurso de que "Deus está à frente" é somente mais um usado para mascarar pessoas que se dizem de bem e gerar inimigos que não existem, sendo que nós mesmos nos comportamos como aquilo que queremos eliminar, como aquilo que criticamos. Criado o inimigo, lutamos para eliminá-lo e geramos, em retorno, um herói, na figura de um representante ou de um grupo político. E esse herói será o responsável por expurgar os espaços públicos do mal ou da doença que prejudica o sistema, visto aqui como o adversário.

Adversários não são inimigos e essa concepção arcaica, como consta em 'Como as democracias morrem', já devia ter sido varrida da política há anos, já que várias agremiações diferentes também podem desempenhar bons papeis e não somente aquela que agrada lados fixos, A ou B. Desempenhar bons papéis não é exclusividade de pessoas do “lado de Deus”, como constantemente candidatos, apoiadores etc. nas redes sociais se colocam, ao usar a religião, em mensagens subliminares, para “colocarem-se do lado do bem”. Em verdade, estão manipulando as massas com o objetivo de angariar votos.

O retorno de Deus às urnas (se é que algum dia se ausentou delas) só prova o quanto ainda somos inseguros e egoístas, e o quanto brigamos sujo quando nosso conforto é ameaçado. O retorno de Deus às urnas nos faz pensar numa ameaça ao estado laico que deveria, em tese, não aderir a uma forma religiosa específica, mas ausenta-se dessa postura, para garantir a existência de todos os cultos e o respeito a todos eles. E quando falo no Deus que essas pessoas mencionam, falo no Deus do discurso, aquele “criado” por diferentes culturas para refletir as necessidades e os valores delas, assim como também os interesses bons ou maus.

Diante disso, perguntamos: de que lado Deus está na política? E uma resposta bem cabível seria: de ninguém e de todos, simultaneamente. De ninguém que quer usá-lo para fins egoístas e de todos que querem amadurecer moralmente, corrigindo suas tendências negativas.

Era de se esperar que as pessoas que foram contra o atual governo ainda tivessem memória para não apoiar esse tipo de prática demagógica. Mas brasileiro tem memória curta, não é? Não acredito que seja algo feito "por acaso". Isso é deliberado e, diga-se, imoral. É estratégico e a mensagem é essa: "Nós somos bons e Deus está conosco. Ataquem o outro lado. Briguem contra eles. Eles são o inimigo". O passado deveria nos ensinar algo: não se mistura Religião com Política.
Ismael Nazário é Mestre em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), formado em Letras/Inglês pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Psicopedagogia pela Faculdade Sena Aires (FACESA) e professor da Escola Estadual Liceu José Furtado de Macedo
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jaguaribara em Foco.

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