segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Opinião: quando falhamos enquanto comunidade?

Publicado em  segunda-feira, setembro 07, 2020  |  em  Opinião

 Por Lianne Ceará

Foto: Reprodução/IMOPEC

Havia uma casa povoada por jovens, essa casa guardava uma cidade dentro de si. A cidade tinha um tesouro muito além do que era pensado: a memória. Essa casa foi pensada para e pela comunidade há 22 anos, em 1998. Naquela época, a população não acreditava que ia vencer uma luta travada desde 85, mas encontrou naquela construção de pedra e cal o reconforto que precisavam pra seguir: a história.


No filme “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, há uma população que luta para manter em pé sua memória e história através de um museu. A cidade não é localizada no mapa e recebe estrangeiros dispostos a acabar com a memória do local. A população, composta por uma “brava gente nordestina”, perde conterrâneos mas, os que sobraram, lutam não só para sobreviver mas também para deixar acesa a chama de sua história, protegendo o museu comunitário, a escola, as crianças - sementes do amanhã. 


Ao assistir Bacurau, sair aos prantos e ver tantas coincidências com Jaguaribara, me perguntei em quais momentos havíamos errado. Ou melhor, em que momento nos perdemos? Em que momento perdemos o instinto de proteção daquilo que foi feito pra gente e pela gente? Qual foi o ponto dessa nossa história em que construímos muros que nos separam dos nossos instrumentos de resgate? Perdemos nossos vizinhos, perdemos nossas casas e isso já seria motivo suficiente para que protegêssemos o que restou.


A casa que me refiro é a Casa da Memória, que completou 22 anos neste último mês de agosto. Idealizada e concretizada em 1998, com a ajuda do Instituto da Memória do Povo Cearense (IMOPEC) – que está desativado hoje em dia –, a população recebeu conhecimento e potencializou a juventude daquela época para que fossem erguidas quatro paredes que protegessem o que ia restar de nós: a memória, a nossa história. 


O nosso hoje só existe porque o nosso ontem cumpriu seu papel. Apesar do nosso ontem resistir, o hoje é frágil. Não existe futuro plausível com uma população sem o conhecimento de seus direitos e o exercício de seus deveres. Nosso ontem potencializa as possibilidades no campo da cultura, do turismo (e, consequentemente, da economia) e de tantos outros segmentos, mas não há potência que resista a falta de cuidados, políticas públicas e representatividade política. 


Sim, precisamos de pessoas públicas que compreendam nossas leis, mas precisamos de uma sociedade atenta e unida, marchando para o mesmo lugar em que aquela de 98 marchava quando atravessavam o rio para buscar a musealia (objetos que estão em um museu e se tornam bens sociais, patrimônios daquela sociedade) que iria compor a Casa da Memória. 


Ouso também em dizer que acredito que grande parte dos jovens da nossa nova geração, assim como eu e parte dos que tive contato, visitou por poucas vezes a Casa da Memória, muito menos sabe que nosso povo, na verdade, é advindo de uma tribo indígena que existia aqui muito antes que os portugueses os expulsassem e instalassem uma fazenda para criação de gado e, depois, uma vila. 


É urgente que reconheçamos nossas raízes, que coloquemos ao chão os muros que nos separam de nossas memórias, que ousemos dizer que não conhecemos nossa comunidade e que queremos conhecê-la, que exerçamos nossos deveres para que possamos exigir nossos direitos de forma integral e não só com o básico. Enquanto não descobrirmos onde falhamos enquanto comunidade, nós nunca saberemos para aonde vamos. Não existe projeto de futuro em uma comunidade que não é ciente de seu passado.

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